Friday, April 22, 2005

A barca dos amantes


Ah
quanto eu queria
conseguir
trazer
a
barca
à
madrugada
e desfraldar
o pano
branco
na que for
terra
a mais amada

Sunday, April 03, 2005

jardim da chuva

toca-me de mansinho e leva-me pela mão
ao jardim onde embarcámos um dia
no silêncio da chuva
percorre-me na sombra
e sê comigo

num momento eterno de sorriso

Wednesday, March 16, 2005

Creio nos anjos que andam pelo mundo


Homenagem a Natália Correia
Leiria, 1994


Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Ámen.

In Sonetos Românticos, 1990
(O SOL NAS NOITES E O LUAR NOS DIAS II, pág.392)
Natália Correia

Tuesday, March 01, 2005

Lena canta Elis


foto de Luís Lisboa, Sintra 2003
Maria, Maria
é um dom, uma certa magia
Uma força que nos alerta
Uma mulher que merece viver e amar
Como outra qualquer do planeta

Maria, Maria

é o som, é a cor, é o suor
É uma dose mais forte, lenta
De uma gente que ri quando deve chorar
E não vive, apenas aguenta

Mas é preciso ter força, é preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo uma marca
Maria, Maria, mistura a dor e a alegria

Mas é preciso ter manha, é preciso ter graça
É preciso ter sonho, sempre
Quem traz na pele essa marca
Possui a estranha mania de ter fé na vida


(Milton Nascimento/Fernando Brant)

Quando vem do amor

Quando vem do amor
Não dá nem pra não ver
Ver a luz que pintou
Se pintou bem querer
Não dá nem pra não ser, ai
Quando vem do amor

Vem ser bom sinal na minha vida
Puro cristal do meu desejo
Beijo de luz, mais pura força
Força vital da natureza
(ronaldo bastos/luís pedro fonseca)
álbum Lusitânia, 1984

Saturday, February 12, 2005

Bósnia 96


ricardo dias, andré sousa machado, eu, vítor milhanas, manuel rocha, toni pinto

   

 

Thursday, February 03, 2005

A culpa é da vontade

António Variações,
barbeiro, p
oeta e músico

foto tirada por mim
no Estoril
em 1983

Monday, January 31, 2005

lena d'água perto de ti, 1982

fotos luís vasconcelos

perto de ti

dei por mim a dançar na praia
subi à noite com a maré
fui nas ondas da minha saia
fiquei contigo fora de pé
perto de ti é onde eu quero estar

dei comigo a rolar na areia
o corpo nu vesti de luar
na vertigem da lua cheia
segui viagem p'ra te encontrar
perto de ti é onde eu quero estar

tal como um rio sou água a correr
sobre o teu peito, tão fora de mim
na madrugada o incenso a arder
deixa na pele um cheiro a jasmim
fico perdida de amor

perto de ti é onde eu quero estar
ao pé de ti sinto-me flutuar
perto de ti é onde eu quero estar
ao pé de ti sinto-me transbordar

letra: lena d'água e luís pedro fonseca,
música: carlos fortuna e luís pedro fonseca
álbum "perto de ti", 1982

Friday, January 21, 2005

Menina do circo

Ela estava a pintar os olhos quase colada ao espelho, como se estivesse à procura de alguma coisa dentro dos olhos, por debaixo das pálpebras, com um lápis de carvão. Primeiro um, depois o outro. Depois voltava ao primeiro.
Cada vez que abriam a porta era uma onda de ruído que entrava pelo quarto e o enchia até ao tecto.
Ele andava de um lado para o outro, como os animais presos, da janela até à parede branca e depois voltava para trás. Não valia a pena olhar lá para fora: fazia demasiado escuro. Se houvesse uma cadeira talvez se sentasse, mas não havia cadeira nenhuma e não ia ficar ali de pé, parado, num sítio qualquer. Ficaria com ar de parvo.
A meio da sala havia uma mesa redonda com coisas para comer e algumas garrafas. Ele não tinha fome nem sede.
Foi então que ela soltou dois gritos muito agudos para desprender a voz. Se calhar para afastar a ansiedade com um susto.
Também ele sentia ansiedade. Como se fosse ele que tivesse de ir cantar para uma pequena multidão impaciente, ele que não sabia cantar, nem para os amigos.
"Tudo pronto. Entramos dentro de dois minutos", ouviu dizer ao guitarrista que tinha acabado de entrar. Ela pôs-se de pé.
Estava vestida como uma menina do circo que anda sobre os elefantes. Isso enterneceu-o.
Aproximou-se dela para a agarrar, para a beijar, mas ela estendeu os braços em frente, afastando-o. Por causa da pintura. E os beijos enfraquecem a voz. Era o que ela costumava dizer.
O guitarrista agarrou na guitarra lacada de vermelho encostada à parede do fundo e saiu.
"Até já, meu menino". E a porta fechou-se atrás dela.
Ele ia continuar o seu inútil passeio entre a janela negra e a parede branca. Contaria as músicas. Sabia que eram treze, porque era sempre assim.
Até lá não havia mais nada a fazer.

in A noiva judia
Pedro Paixão